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Rússia quer se desconectar da internet global

Por que isso deveria nos preocupar?

Marcio Vasconcelos

02/04/2019 às 9h18

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A internet nasceu nos Estados Unidos da América (EUA) em experiências militares em plena Guerra Fria, no final da década de 60. Por isso, a infraestrutura que a sustenta foi sendo construída e ampliada a partir desse país. Isso criou vantagens aos EUA e desvantagens a outros países em controle de tráfego e possibilidades de controle da Internet.

Vivemos tempos de declínio da democracia e consequente aumento do autoritarismo no mundo e, nesse contexto, a Internet se torna instrumento central de comunicação para os cidadãos se expressarem e se organizarem contra o autoritarismo.

Nada mais natural que estados autoritários desejem controlar o acesso à Internet que seus cidadãos têm.  Atualmente, existem três opções para isso. 

  • Cortar o acesso à Internet, o que algumas nações fazem em momentos críticos. Porém, é algo que não pode ser mantido por muito tempo;
  • Vigiar o conteúdo publicado na Internet, o que todas nações autoritárias (e muitas das ditas democráticas também) fazem. A liberdade só existe em comunicação criptografada
  • Controlar a experiência online dos cidadãos, o que é feito com êxito pela China. Isso só é possível com o domínio da infraestrutura que sustenta a Internet no território de seu país. A China incorporou a infra-estrutura local de ISP e DNS no início dos anos 2000.
Qual difícil é criar uma infraestrutura local da Internet?

A Rússia deseja fazer o mesmo que a China fez. Segundo esta publicação do MIT, o governo desse país  está fazendo um teste que deverá ir até meados de abril de 2019 para verificar a viabilidade de se desconectar do resto do mundo eletronicamente enquanto mantém a Internet funcionando para seus cidadãos.  

Isso é um exercício de extrema complexidade técnica, pois requer criar diversos níveis de infraestrutura e replicar servidores e protocolos que operam em outros países. Os detalhes técnicos estão no artigo supracitado.

Porém, o que me interessa não é o desafio técnico, mas, sim, o aspecto ideológico e as consequências da ação para a liberdade das pessoas, frente a regimes autoritários.

Parece que a Rússia está levando esse esforço a sério, a ponto de protocolar em 14 de dezembro de 2018 um projeto de lei sobre a “soberania da Internet” na Rússia. Seu trâmite e conteúdos podem ser acompanhados nesta página da Duma.  Use um tradutor, pois está em russo.

A nota explicativa do projeto traz em sua essência que a Rússia precisa dar uma resposta à natureza agressiva da Estratégia Nacional de Segurança Cibernética dos EUA adotada em setembro de 2018. Argumentam que é preciso tomar medidas de proteção para garantir a operação estável e de longo prazo da Internet na Rússia e para aumentar a confiabilidade dos recursos da Internet russa.

Alguns dos itens mais preocupantes são:

  • as operadoras de telecomunicações são obrigadas a garantir a possibilidade de controle de tráfego centralizado em caso de ameaça;
  • instalar equipamentos técnicos em redes de comunicação que determinam a origem do tráfego transmitido e;
  • criar meios técnicos para restringir acesso a recursos com informação proibida.

Os demais itens tem aparência de questões técnicas para garantir autonomia da operação da Internet dentro do território russo.

Considerando o histórico de Vladimir Putin, parece provável que ele irá empenhar-se para criar a infraestrutura necessária para ter domínio sobre a Internet em seu território e replicar o controle online feito pelo governo chinês. Comunicação para o governo russo tem se tornado ponto central para manter-se no poder.

O que esperar do futuro?

Se isso se tornar normal, entraremos em uma era onde a Internet não será mais uma rede, mas, sim, uma coleção de blocos estanques de redes que podem ser desconectadas entre si a qualquer momento e com a possibilidade de vigilância e censura muito potencializa em países autoritários.  

Vivemos tempos difíceis para a operação de uma Internet que tenha o bem-estar dos cidadãos do mundo como foco.

Até o criador da web já demonstrou sua decepção com os rumos da Internet  e está propondo criar protocolos para uma nova Internet capaz de combater as distopias que resultaram da hiperconcentração de mercado causadas pelos gigantes digitais. Infelizmente, essa iniciativa não está considerando as ameaças que o controle da infraestrutura da Internet pode representar para a liberdade das pessoas.

A internet em dez anos será mais ou menos livre do que hoje? O que vamos fazer por isso?

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