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WhatsApp – Fake News – Eleições e uma proposta polêmica

Marcio Vasconcelos

14/11/2018 às 16h40

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Bem-vindo ao primeiro artigo da coluna “Tecnologia e Equidade: o caminho para uma nação digital”. Sou presidente do Instituto Tecnologia e Equidade (IT&E), organização sem fins lucrativos com a missão de alcançar a equidade com o uso ético da tecnologia.

Explorarei aqui várias temáticas que cruzem ética, equidade e inovação, tais como: desinformação e democracia, blockchain para impacto social, futuro do mercado de trabalho, dados e governos abertos, cidades inteligentes, automatização e desigualdade, tecnologia e direitos humanos.

Como um bônus, trarei uma abordagem de Pensamento Sistêmico inspirada na brilhante cientista e pensadora sistêmica Donella Meadows. Uma dica: leiam o seu espetacular livro “Thinking in Systems: a primer” (top 10 da Amazon Brasil em Teoria de Sistemas).

Esse artigo aborda o tema  da tecnologia no processo de desinformação (“fake news”) em eleições. Sobre isso, o IT&E desenvolveu a pesquisa Desinformação em eleições: Desequilíbrios acelerados pela tecnologia.

Pesquisa "Desinformação em Eleições: Desequilíbrios acelerados pela tecnologia."

E também o White Paper Recomendações sistêmicas para combater a desinformação nas eleições do Brasil. Confira o site do IT&E para baixá-los gratuitamente.

White-paper "Recomendações Sistêmicas para combater a desinformação nas eleições no Brasil"

Uma das conclusões da pesquisa é que existe um “vírus da desinformação” instalado em nossa democracia, com seis componentes em três dimensões.

  • A dimensão psicológica com o realismo ingênuo (crença de que sua percepção é a única certa e que os que discordam são desinformados, irracionais ou tendenciosos) e o viés de confirmação (motivação para crer no que confirma as suas opiniões e a contestar aquilo que vai de encontro às mesmas).
  • A dimensão social com o efeito manada (tendência de alinhamento de comportamentos em grupo) e o efeito de câmaras de eco (tendência das pessoas formarem grupos que refletem seus próprios pontos de vista, limitando a sua exposição a opiniões desafiadoras).  
  • A dimensão tecnológica com técnicas de persuasão digital (dados pessoais, preferências e sentimentos coletados, analisados e usados para manipular os sentimentos das pessoas) e ferramentas de amplificação digital (uso de bots, cyborgs e plataformas de disparos massivos para amplificar artificialmente a percepção de adesão a um conteúdo específico).

O White Paper traz o único mapa (ver imagem do início do artigo) que explica visualmente o Sistema “Propaganda Eleitoral na Internet nas Eleições de 2018”. Sua leitura e compreensão já representam uma introdução aos Sistemas Dinâmicos.

No White Paper, formulamos 15 recomendações chamadas de “Pontos de Alavancagem Sistêmica” (pontos dentro de um sistema onde uma pequena mudança pode produzir grandes transformações).

No presente artigo, foco na sugestão de fazer com que  plataformas tecnológicas e redes sociais adotem políticas transparentes e rigorosas que possibilitem a redução do alcance de conteúdos reconhecidamente desinformativos. Outro ponto seria eliminar  incentivos financeiros e aplicar outras punições cabíveis nos Termos de Uso (banimento, etc). Isso cai como uma luva no uso do WhatsApp nas eleições deste ano.

Segundo um artigo do New York Times,  as notícias falsas estão envenenando a política brasileira, mas o WhatsApp poderia deter esse processo. O estudo avaliou 347 grupos públicos e as 50 imagens mais compartilhadas (entre 100 mil). Resultado: 56% das imagens eram enganosas e 8% delas eram totalmente verdadeiras.

Teve também uma reportagem do El País que apresentou  amostra de notícias falsas e memes mais compartilhados. Vale ver a criatividade para chocar e provocar fortes emoções nos eleitores.

A Organização dos Estados Americanos monitorou as nossas eleições pela primeira vez. Laura Chinchilla, ex-presidente da Costa Rica, presidiu o monitoramento e afirmou que é a primeira vez que vemos em uma democracia o uso do WhatsApp para difundir maciçamente notícias falsas durante uma eleição.

Chris Daniels, vice-presidente do WhatsApp, escreveu um artigo entre o primeiro e o segundo turno sobre como o WhatsApp combate a desinformação no Brasil, assumindo a responsabilidade da plataforma em amplificar o bom e mitigar o seu mau uso.

Para finalizar polemizando um pouco, apresento recomendações para o WhatsApp e a Justiça Eleitoral.

Antes, reforço que defendo veementemente a manutenção da criptografia ponta a ponta para manter a privacidade nessa plataforma. Desenvolverei esse tema em outro artigo.

Proponho dois funcionamentos. Usuários individuais terão acesso à comunicação em pequena escala, com características de conversa privada entre conhecidos. Isso se dará com novos limites para grupos, encaminhamentos e listas de distribuição, aproximando-se dos limites de uma comunicação humana natural!

Para usuários que necessitam de escala e comunicação com desconhecidos, haveria uma relação comercial. O spam deve ser fortemente combatido e, no período eleitoral, adiciona-se o pleno respeito às regras de propaganda eleitoral. O autor e o conteúdo a ser massivamente difundido precisariam ser registrados antes de serem enviados.

Para mim, a liberdade de expressão online com privacidade deve ser exercida na escala natural das conversas humanas offline. Ao usar ferramentas digitais para usos massivos de envios, em especial com propaganda eleitoral, não se trata de liberdade de expressão, mas de estratégias de marketing com potencial para manipular emoções e distopias, como temos visto seguidamente no mundo e também no Brasil.

Se quiser falar comigo, escreva para marciovp@gmail.com

 

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