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Implante cerebral recupera visão útil de pessoas cegas

"É simplesmente incrível ter alguma forma de visão funcional novamente”, diz Esterhuizen, um dos pacientes.

Wellington Arruda

08/10/2019 às 15h40

Foto: UCLA/Divulgação

Em maio deste ano, a Second Sight Medical Products anunciou seus planos para iniciar o desenvolvimento e comercialização do Orion Visual Cortical Prosthesis System. Ou, no caso, somente "Orion".

O dispositivo foi desenvolvido pelos pesquisadores da UCLA Health (Universidade da Califórnia em Los Angeles). Ele foi implantado cirurgicamente no cérebro de seis pacientes cegos, restaurando sua capacidade de perceber objetos e movimentos.

O foco do desenvolvimento foi em pessoas que possuíam visão, mas não mais as possui. Assim, o dispositivo os ajuda a distinguir a luz do escuro. Isto lhes dá uma certa independência em tarefas diárias, como encontrar itens rapidamente numa mesa, por exemplo.

Dr. Nader Pouratian, neurocirurgião da UCLA Health e principal pesquisador do projeto, diz que o dispositivo é inovador em vários sentidos. "Esta é a primeira vez que temos um dispositivo completamente implantável, com o qual as pessoas podem ir para casa e usá-lo em suas próprias condições de vida, sem ter que estar conectado a um dispositivo externo", disse.

Com ele, os pacientes podem reconhecer "onde ficar uma porta, onde a calçada começa ou termina, ou onde fica a faixa de pedestres", afirma Pouratian.

Padrões de luz

Com ajuda da Second Sight, o implante converte as imagens capturadas por uma câmera que é alocada em um óculos, fornecendo uma série de pulsos elétricos.

Os pulsos, por sua vez, estimulam um conjunto de 60 eletrodos implantados no topo do córtex visual do cérebro, que "traduz" os padrões de luz como sinais visuais.

O sistema inclui também um cinto que é equipado com um botão para amplificar objetos escuros ao sol, ou para visualizar objetos claros no escuro.

Quanto mais for utilizado, o dispositivo ajuda o paciente a entender o que cada diferença de luz representa. Pouratian, com ajuda das descrições dos pacientes, espera expandir as capacidades do Orion no futuro para que mais pessoas se beneficiem da tecnologia, incluindo aquelas que nasceram cegas ou com baixa visão.

39 milhões de cegos no mundo

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que há, no mundo, 39 milhões de indivíduos cegos. No Brasil, o número estimado é de 1.577.016, ou 0,75% da população.

O implante, em si, estimula o lado esquerdo do cérebro do paciente. Então, eles recebem essas "pistas" visuais no lado direito do seu campo de visão. O objetivo dos pesquisadores é implantar nos dois lados, recuperando um campo  de visão completo.

Pouratian diz que o dispositivo "tem o potencial de restaurar a visão útil de pacientes cegos por glaucoma, retinopatia diabética, câncer e trauma".

"É como ver as estrelas à noite"

O estimulo no córtex visual pode ajudar pacientes como Jason Esterhuizen. Em um acidente de carro, há sete anos, ele sofreu danos nas retinas e nervos ópticos. Ele tinha 23 anos e estudava para se tornar piloto de avião.

Ele é um dos pacientes que recebeu o implante dos pesquisadores da UCLA Health e se mudou da África do Sul para participar da pesquisa nos Estados Unidos. "Agora, posso fazer coisas que não podia fazer antes", diz ele.

Sobre as atividades recuperadas, Esterhuizen diz: "Posso arrumar a roupa, encontrar meu caminho nos corredores iluminados sem usar bengala e atravessar a rua com mais segurança. Está facilitando minha vida."

De fato, ele não enxerga uma imagem nítida dos objetos. "O que vejo são pontos brancos em um fundo preto, é como olhar para as estrelas à noite", disse.

Quando uma pessoa caminha em minha direção, consigo ver três pontinhos. À medida que se aproximam de mim, mais e mais pontos se acendem.

Esterhuizen diz que toda vez que liga o dispositivo é uma experiência impactante. “Depois de ver absolutamente nada, de repente, vemos pequenos tremores de luz se movendo e descobrindo que eles significam algo. É simplesmente incrível ter alguma forma de visão funcional novamente”.

Os pesquisadores também divulgaram um vídeo explicando o conceito do implante, que pode ser assistido aqui.

Fonte: UCLA, Second Sight. Com informações: UOL.

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