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Mudar é difícil, mas não mudar é fatal

Déborah Oliveira

17/08/2017 às 13h50

Mudar
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No conceito da jornada do herói, um indivíduo percorre o mesmo caminho até a conquista de uma meta. Ele se vê diante de uma mudança, passa pela trilha do medo diante de um desafio até chegar a atitude. Foi sobre essa tríade que os filósofos e professores Leandro Karnal e Luis Felipe Pondé falaram na abertura do IT Forum+, que acontece de 16 a 20 de abril, na Praia do Forte (BA).

Abordando o tema mudança, Karnal lembrou que toda crise tem um aspecto positivo. Fazendo referência à crise política e econômica atual, o filósofo apontou que quadros como esse provocam alterações nas empresas e as obrigam a se adaptar. “Momentos assim exigem respostas novas, porque felicidade e estabilidade costumam diminuir a adaptabilidade ao meio”, comentou.

Nesse contexto, a tradição, o costume e a zona de conforto transmitem tranquilidade. É algo físico e comprovado pela medicina. Segundo ele, toda vez que uma pessoa faz algo que sempre fez, dois neurônios ou mais se conectam. “Toda vez que eu repetir e fizer de novo aquela prática, meu cérebro notará que ele consome menos energia. A natureza humana busca repetição”, explicou.

Qual o problema disso, então, questionou ele. A regra de tudo é transformação. Não existe estabilidade, lembrou. Mas, mais uma vez, a explicação biológica entra em cena. Toda vez que uma pessoa faz algo da mesma forma, terá o mesmo resultado. É uma situação confortável, afinal. “Mudar é difícil, não mudar é fatal”, sentenciou.

Isso porque, lembrou, o que deu certo hoje, certamente não terá sucesso amanhã. É preciso ir além, encorajou. Karnal apontou, ainda, que o fato de as coisas não darem certo hoje, significa que elas precisam ser planejadas de novo. O esforçou comparou, é igual ao banho. Precisa ser realizado todos os dias. “O que transforma o mundo é a ação.” Karnal lembrou que a gestão da mudança é algo permanente. Mas é preciso deixar de lado a fantasia de acreditar que a simples ação resolve tudo.

Ele lembrou que para mudar, é preciso coragem. Mas, como é sabido, o medo toma conta. “Entre o mau conhecido e o bem provável, o cérebro humano manda ficar com o mau conhecido”, apontou Karnal.

Superação do medo

Em sua fala, Pondé citou o filósofo alemão Hegel para reforçar o ponto que todo momento histórico tem uma fase propositiva, negativa e depois uma melhora. É uma curva natural, mas a modernidade impede as pessoas de terem medo. Ao menos de externalizar esse sentimento.

“O medo está relacionado ao fato de que você será deixado para trás. Por mais que digam a você que vai dar tudo certo e que há espaço para todo mundo, é mentira. Não vai dar. Não dá para todo mundo”, comentou.

Ele lembrou que há alguns anos em sua coluna em uma rádio, ele recebeu o desafio de convidar alguns alunos para sugerir pautas para o seu programa. O tema escolhido foi o medo. “Os jovens sabem que o mercado de trabalho está mais competitivo e instável. Suas chances de ganhar o que seus pais ganham não é tão evidente. Eles temem o avanço tecnológico e a automação”, observou, acrescentando que, de fato, o mundo está mais complexo, pressionando as pessoas a vencer o tempo todo.

A negação de momentos sombrios acontece com frequência. Mas será que esse é o caminho natural? “Que nós tenhamos o mínimo de reverência pelo medo, fundamentado na experiência real”, recomendou.

Hora da virada

Karnal concordou com Pondé sobre o tema ao afirmar que há positividade no medo. “Sem dor, não se desenvolve o medo. Sem isso, não tomo atitudes prudentes e de previsão e o resultado é a morte. Sem a perspectiva da morte, existe melancolia”, justificou ele.

Para ele, portanto, o medo é elemento essencial da esperança e não se pode, simplesmente, riscá-lo da lista de sentimentos. Ele, inclusive, faz as pessoas estabelecer alianças e fazer concessões, se posicionando como um elemento construtivo. “Viver com medo é ser escravo, mas viver sem medo não me torna um Deus, mas melancólico e depressivo.”

Karnal, então questionou Pondé sobre se é possível transformar o medo em um elemento de ação. Pondé, por sua vez, afirmou que, sim. Para ele, medo e ansiedade são parte das pessoas. No mundo corporativo, citou, se opta por esconder essa dimensão sombria. Mas é o seu uso construtivo que gera um processo de amadurecimento consciente. “O que humaniza é o fracasso, não é o sucesso”, disse, completando que por mais que pareça redundante, um dos modos construtivos do medo é perder o medo de ter medo.

Pondé comentou que falta aceitação por parte das pessoas. Segundo ele, o grande desafio da vida é viver uma vida do seu tamanho. Em sua visão, as pessoas precisam ter uma atitude que tenta equilibrar necessidade de avanço e medo. “Não se deixe contaminar pela ideia de que é preciso ser melhor o tempo todo”, alertou.

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