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O papel dos dispositivos na adoção da LTE

Déborah Oliveira

23/03/2016 às 11h13

O papel dos dispositivos na adoção da LTE
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Na adoção da tecnologia LTE, o foco principal são as redes, enfatizando o papel das operadoras e reguladoras em uma implementação bem-sucedida. No entanto, menos atenção é dada ao papel dos telefones e outros dispositivos que estão localizados na extremidade da rede e são o ponto de contato entre usuário, serviços e conteúdo que esta tecnologia oferece.  
Um mercado em crescimento impulsionado pelos emergentes 
Redes e dispositivos são dois lados da mesma moeda. A propagação de qualquer nova tecnologia móvel depende tanto da implantação de redes quanto da disponibilidade de dispositivos. Inclusive, na fase inicial de implantação, a disponibilidade de terminais é mais relevante do que a cobertura geográfica da rede. A rede pode estar ligada e funcionando, mas se não há terminais para usá-la, o serviço não existe para o usuário.  
Uma vez que o custo dos dispositivos chega ao usuário final, ser acessível é a chave para uma rápida adoção de novas tecnologias. Não se trata apenas de ser mais acessível, mas também permitir que operadoras aumentem rapidamente o número de clientes que utilizam a nova rede, acelerando o seu retorno. 
É importante ressaltar que a padronização da indústria de telefonia móvel em torno da tecnologia LTE empurrou para baixo os preços dos terminais, graças às melhores economias de escala. Nesse sentido, de acordo com projeções da IDC, espera-se que entre 2014 e 2018, o mercado global de smartphones cresça a uma taxa anual de 9,8%, impulsionado principalmente por mercados emergentes. 
Espera-se que a 1,28 bilhão de unidades entregues mundialmente em 2014 progridam para 1,87 bilhão em 2018, com redução de 19% no preço médio da venda. No caso dos mercados emergentes, a queda de preços será mais acentuada: 24% no mesmo período. Anteriormente, o preço médio do smartphone na América Latina, entre 2013 e o final de 2014, caiu por volta de US$ 100. Uma redução significativa em qualquer lugar do mundo, e mais ainda em mercados como o da América Latina, com um PIB per capita muito menor do que em mercados desenvolvido.
Uma oportunidade para marcas locais 
Empresas analistas de mercado internacional como IDC, Gartner e Counterpoint concordam que quatro de cada cinco telefones vendidos na América Latina em 2014 foram smartphones. Esse grande crescimento aliado à padronização do Android como plataforma dominante resultou em preços mais baixos e impulsionou sua adoção. 
O cenário se tornou favorável para marcas locais e, assim como montadoras de PC locais e regionais, marcas nacionais de smartphones podem fornecer componentes importados, fabricados em larga escala a preços competitivos. Na América Latina, marcas locais que competem em seus mercados com grandes fornecedores internacionais estão crescendo. Como exemplo: Gradiente (IGB) no Brasil, Cronos (Mobifree) no México, Joy (BGH) na Argentina, Yezz no Equador ou Vergatario (Vtelca) na Venezuela. Essa situação se reflete na taxa de evolução de marcas locais de smartphone na América Latina, de acordo com dados do Counterpoint Research:
O salto no crescimento das marcas locais foi muito grande no segundo semestre de 2014, considerando a rápida adoção de smartphones e, mais recentemente, do 4G. Esses mercados em expansão proporcionam possibilidades de crescimento e marcas locais estão se capitalizando: um em cada seis smartphones vendidos em 2015 é de uma marca local. 
A evolução das marcas locais pode ser impulsionada por meio de iniciativas de empresas de tecnologias que focam no crescimento do mercado de fabricantes locais ou regionais, um exemplo é a QRD ou Global Pass. O QRD, desenvolvido pela Qualcomm, é um conjunto de modelos de referência para os fabricantes de smartphones, incluindo design de hardware, software de base, listas de fornecedores de componentes e suporte. Com configurações testadas e certificadas, os fabricantes de smartphones podem reduzir o tempo de desenvolvimento e obter custos mais baixos.
Já a Global Pass é uma plataforma que permite que o fabricante escolha as configurações de idioma, a configuração da rede (selecionar a combinação certa de 40 diferentes faixas de frequência LTE, por exemplo) e testar a validação para diferentes operadoras e países. Isso acelera o processo de aprovação de vários modelos de smartphones, reduzindo o tempo para o lançamento no mercado. Além disso, o fabricante pode armazenar um único produto a ser utilizado por várias operadoras, reduzindo custos com inventário e configuração e facilitando o alcance dos dispositivos.
Com base em componentes padronizados, marcas locais podem oferecer produtos mais adequados às especificidades de cada mercado, em termos de configuração, tempo de colocação no mercado e localização. Assim, enquanto as marcas internacionais têm o desafio de serem globais e ao mesmo tempo locais, as marcas locais se concentram em seus mercados domésticos, se adaptando rapidamente a mudanças, possibilitando que marcas locais bem posicionadas ganhem terreno.
O peso das políticas industriais 
Embora o papel dos terminais seja claramente fundamental – ao acelerar a adoção da LTE e melhorar a experiência do usuário – é importante que os países tomem medidas a fim de minimizar as barreiras para sua aprovação.  
Às vezes, as prioridades nacionais são mais focadas no lado fiscal ou em políticas de substituição de importação do que em desenvolver uma infraestrutura moderna e viável para as comunicações móveis. Alguns países impõem altas taxas de importação para os terminais, que variam entre 200 e 500%, como é o caso da Venezuela. Essas são políticas direcionadas para cobrança de impostos e não para a proteção ou o incentivo à indústria local. Outros, como a Argentina e o Brasil, têm políticas de substituição de importações, o que pode ser um meio válido para o desenvolvimento industrial, especialmente nas fases iniciais, porém os resultados não são satisfatórios em termos de preço e em termos de desenvolvimento de um ecossistema com escala suficiente para ser competitivo além das fronteiras. 
A consequência de medidas que aumentam artificialmente o custo dos telefones adquiridos de forma local é limitar sua propagação, atrasando a adoção de novas tecnologias e suas técnicas e benefícios sociais.  
Aproveitando a oportunidade 
Em resumo, a padronização resulta em uma tecnologia única, como LTE para 4G, acelerando a redução do preço dos dispositivos, aumentando capacidades e promovendo um processo de aprovação mais rápido. Assim, não só os usuários são beneficiados, mas cria-se a oportunidade de desenvolvimento de marcas locais que se concentram em seus mercados e suas necessidades. Para possibilitar essa oportunidade os governos devem medir o impacto de suas políticas nessa área, dando prioridade ao desenvolvimento digital em vez de focar em objetivos fiscais, impedindo suas políticas industriais de gerar mais efeitos negativos do que positivos. 
*Enrique Carrier é diretor da Carrier y Asociados 

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