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Pesquisador revela como robôs influenciam eleições

Uso de bots poderá confundir eleitor no Brasil, acredita pesquisador que há anos observa fenômeno

Redação

06/03/2018 às 9h27

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As últimas eleições na Alemanha foram um grande desafio para Simon Hegelich. Enquanto a chanceler federal Angela Merkel tentava se reeleger, o pesquisador da Universidade Técnica de Munique (TUM) observava a ação de um agente que poderia influenciar a corrida eleitoral: os bots.

Desenvolvidos na maior parte dos casos para parecerem humanos, esses programas de computador atuam por meio de perfis falsos nas redes sociais e nem sempre são “desmascarados” com facilidade.

“Durante as eleições alemãs, constatamos bots ativos principalmente no Twitter”, afirma Hegelich. “Pode-se dizer que cerca de 10% dos tweets com hashtag ‘Merkel’ foram geradas por meio desses robôs”, complementa. Por outro lado, os sistemas de reconhecimento ainda não são homogêneos – diferentes sistemas indicam estimativas diversas.

Apesar do elevado número de notícias geradas por bots, ainda não se pode medir o impacto dessas mensagens na hora de o eleitor escolher o seu candidato. “A maior ameaça dos bots sociais é que eles podem distorcer as tendências e levar a decisões ruins”, alerta Hegelich.

Era dos bots na democracia

Em sua pesquisa, o cientista político Hegelich tenta desvendar a influência da atual revolução digital no cenário da política. Para isso, ele desenvolve novos métodos: visão computacional, simulações, mineração de dados e machine learning. Muitos softwares usados nas análises são programados nos próprios laboratório da TUM.

O objetivo é criar uma métrica para avaliar o efeito dos bots nas redes sociais - missão considerada extremamente complexa. Ainda assim, a equipe de Hegelich já conseguiu feitos importantes. “Nos atuais protestos contra o governo no Irã, por exemplo, conseguimos mostrar que os bots influenciaram a condução do debate de uma maneira negativa”, afirma o pesquisador.

Ainda no contexto internacional, em 2015, Hegelich concluiu que programas de computador manipulados por ultranacionalistas na Ucrânia estavam controlando cerca de 15 mil contas no Twitter, com a publicação de mais de 60 mil tweets por dia.

Mais recentemente, uma pesquisa analisou cerca de 30 mil atividades no Facebook relacionadas ao debate de refugiados na Alemanha. O estudo concluiu que grupos de extrema direita tentavam manipular a discussão. Usuários hiperativos, humanos e bots acabaram chamando a atenção com “curtidas” sistemáticas do partido alemão AfD.

Eleições no Brasil

Para o pesquisador, o efeito praticamente nulo dos bots nas últimas eleições da Alemanha, em setembro de 2017, só aconteceu porque o debate sobre esse fenômeno foi amplo em todo o país.

Hegelich acredita que a mesma estratégia pode ser adotada no Brasil, onde eleitores irão escolher um(a) novo(a) presidente em outubro. “Jornalistas têm um papel importante. Eles não devem escrever sobre tendências nas redes sociais como se essas tendências de fato existissem. Isso porque os bots são excelentes exatamente nesse quesito: criar falsas tendências”, justifica o pesquisador.

Isso não significa ignorar o mundo digital. É preciso observar exatamente o que acontece nas redes sociais para que essas campanhas falsas sejam identificadas a tempo. “Quanto a isso, o papel da sociedade civil é fundamental. Todos precisam deixar muito claro que o compartilhamento de uma informação milhares de vezes não significa que a notícia tenha qualquer fundo de verdade”, comenta Hegelich quando questionado sobre as eleições no Brasil.

Para o pesquisador da TUM, uma regra funciona bem em qualquer parte do mundo, independentemente do idioma: “Um público esclarecido não pode ser facilmente manipulado”.

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