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Presidente da Accenture fala sobre desafios e exalta oportunidades com digital e inovação aberta

07/03/2016 às 13h35

Presidente da Accenture fala sobre desafios e exalta oportunidades com digital e inovação aberta
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Com quase 25 anos de Accenture e ampla experiência na vertical de finanças da consultoria, Leonardo Framil assumiu a presidência da companhia há poucos meses, com uma missão bem desenhada: ampliar a ênfase na transformação digital, acelerar projetos e trabalhar forte para garantir as melhores oportunidades num momento em que a turbulência econômica parece não querer dar trégua tão cedo.
Em uma conversa na sede da empresa em São Paulo, o executivo, que adota um tom mais informal - o que surpreende no mundo das consultorias -, falou sobre foco, cultura digital nas empresas brasileiras e frisou que muito da transformação em curso será liderada pelo negócio, uma vez que envolve revisão de processos e mudanças de modelos de negócio. O executivo colocou ainda como grande desafio trabalhar a seletividade das apostas, já que, de acordo com Framil, em tempos restritivos, as chances de errar aumentam, assim, é preciso ser certeiro em onde centrar esforços. 
A seguir, você confere o resultado da conversa.
IT Forum 365 - Que caminho você pretende dar para Accenture no Brasil? Haverá mudança no curso da empresa, que, na área de TI, vinha focando muito a transformação digital?
Leonardo Framil - Fundamentalmente, eu não diria que tenha mudança, mas um aumento de ênfase e de velocidade. No cenário do Brasil você tem espaço para conversar sobre dois temas: transformação digital e eficiência. Lembrando que quando coloco isso não digo que são assuntos desconexos. A forma de obter eficiência hoje é por meio da transformação digital. Mas o mercado ainda entende quando falamos de transformação digital (uma proposta) de mudança na forma como interage com cliente, a forma que você dá uma experiência para ele, mais conectada com aquilo que o mundo das empresas internet já fazem e menos com revisão dos processos internos, ou com o como que você digitaliza a empresa, que é onde vem a eficiência.
Tem oportunidade grande de dar ênfase no atendimento ao cliente digital, mas de ganho de eficiência por meio da digitalização da empresa, onde removo processos baseado em papel, consigo implantar eficiência por meio da robotização dos processos. São temas que os clientes estão interessados, seja por necessidade de melhorar resultados no curto prazo ou porque não se pode esperar melhorar as condições para fazer investimentos necessários na transformação digital; fica clara a ameaça da disrupção em alguns negócios. 
E o que estamos fazendo para isso? A Accenture mede hoje o Digital Rotation, que traz qual o porcentual de negócio que está alinhado ao mundo digital, ao que fazemos em cloud, mobilidade, analytics. Globalmente, 35% do nosso negócio é ligado ao digital e no Brasil estávamos um pouco abaixo dessa média, mas nosso objetivo, dado ao momento de mercado e da visão de que estamos numa região e País com adesão grande ao digital e espaço para repensar modelos, deveríamos estar à frente da nossa media global. Queremos, então, aproveitar o que foi construído nos últimos anos com aquisições e talentos e acelerar em proposição ao mercado.
ITF 365 - Essa parte do digital não muda, mas vi que BPO e analytics também vêm forte na estratégia, certo?
Framil - Mas quando falamos de BPO é embarcado com digital, não queremos fazer BPO como forma de reduzir custo de pessoas, mas como transformação de processo, melhoria atendimento ao cliente, embarcando as transformações em digital. E uma das coisas que estamos fazendo é criar um braço mais forte de open innovation. Trouxemos uma pessoa de fora, que é um empreendedor com muito trânsito no mundo das startups, para liderar essa iniciativa. Esse mundo de startups vai ganhar atração enorme no Brasil e a gente se vê como uma empresa com vocação natural para ser a ponte entre grandes empresas e as nascentes. Ajudando startups a criarem proposição de valor para indústria e as grandes a buscarem aquelas ideias que podem gerar diferença para o negocio. 
Nosso movimento maior foi a entrada no Cubo, (centro de empreendedorismo) do Itaú, mas não para por aí. Queremos estar mais presentes nesse mundo. Temos plano a ser anunciado de ter presença forte em open innovation.
ITF 365 - Mas vocês estão abraçando isso com força mesmo? Pergunto porque sempre houve polêmica e ressalvas entre as grandes empresas quando se abordava o assunto inovação aberta.
Framil - Os momentos de maior dificuldade trazem maior pragmatismo. Para ser filosófico custa. Num momento em que se tem menos capacidade de pagar suas convicções, passa a ser necessário olhar de maneira mais pragmática o que é e o que não é core. Ninguém abre essa discussão de forma pragmática. O que é core? O que exatamente você faz que gera valor e é percebido como diferenciação pelos seus clientes?
Muitas coisas que eram proibitivas falar. A industria financeira, por exemplo, que sempre teve visão do que era core, tem clareza que sem colaborar e sem flexibilizar algumas coisas vai ser difícil competir com novos entrantes e, por outro lado, manter o nível de rentabilidade esperado pelo mercado. A discussão fica mais aberta. As organizações criaram um interlocutor para falar sobre isso. Você vê títulos trazendo o nome inovação, até porque era difícil encontrar alguém para falar sobre isso. Poderia ser o CIO, mas nem sempre é ele quem está nesse processo. Tive reunião recente com um executivo para discutir como blockchain (tecnologia de banco de dados distribuídos que registra transações de bitcoin) pode impactar os negócios dessa organização, por exemplo. As pessoas começam a ficar mais abertas porque não tem como controlar essa inovação e existem maneiras de colaborar.
Podemos ajudar as organizações a identificarem processos que não são core e mostrar como mundo da inovação aberta pode ajudar a trazer mais eficiência ou trazer maior diferenciação, dando a segurança de que existe solução robusta por detrás, arquiteturas bem feitas. Pode ter certeza que esse mundo vai crescer de forma exponencial nos próximos anos. Temos capacidade intelectual e produtiva no Brasil não apenas para o mercado interno, mas capaz de produzir soluções para o mercado global.
ITF 365 - Queria voltar à questão do digital, você sente que as empresas no Brasil têm mesmo adesão grande ao que é esse mundo digital?
Framil - Você hoje claramente tem espaço para conversar com qualquer C-level de grandes organizações sobre o tema digital. O que ainda não existe muito no Brasil é clareza de quais são as prioridades nessa transformação. Você tem grandes organizações bem estabelecidas e bem sucedidas no País, então, existe o receio de por onde eu começo. Existe muita discussão e menos execução que em outros mercados, mas do ponto de vista de ser uma prioridade estratégica, tive a oportunidade de passar nos principais clientes da Accenture, foi unânime a abertura para falar do tema. Alguns setores que passam por momentos mais difíceis estão mais conservadores, mas todos discutem e concordam que a ameaça de novos entrantes é real.
Mesmo aquele famoso discurso de que existe regulação, barreiras de entrada, já vejo CEO que diz: até quando essa situação vai perdurar? E quando cair, se eu não estiver preparado, posso me tornar irrelevante em meu segmento.
ITF 365 - A impressão que tenho é que vivemos uma onda na TI quando se fala do digital, como foi com ERP e outsourcing, você acha que o mercado tem esse tipo de entendimento e o quanto essa transformação pode ser benéfica ao negócio?
Framil - Não é unanimidade, mas de maneira geral as grandes organizações já embarcaram nessa onda. Mas o que precisamos superar é que quase todas têm iniciativas, e uma coisa é você partir para transformação digital, outra é você ter conjunto de iniciativas no mundo digital. E qual a diferença? A diferença é quando deixo de ser uma iniciativa de TI e passa a ser algo relacionado ao mundo de negócio.
O que vejo como limitador maior é que isso ainda é muito movido com a ideia de que a tecnologia está mudando e que tenho forma mais eficiente de fazer. E não é isso. O que está mudando é expectativa do que o cliente precisa, a forma como colaboro forma do meu setor, novos negócios e produtos que vão aparecer, a concorrência e aí tenho que repensar minha estratégia e, a partir disso, rever processos e a forma de fazer TI.
Temos estimativas que blockchain vai reduzir em até 20% os orçamentos de TI dos bancos, ou seja, mais eficiência; e isso é discussão de negócio, não de TI. A mudança não será liderada pela TI, mas pelo negócio. Antes a TI era habilitador, agora ela faz parte da formulação estratégica porque tudo está mudando. Essa discussão ganhou relevância diferente e essa mudança cultural ainda não aconteceu como deveria.
ITF 365 - Que desafios você entende que irá enfrentar nesse primeiro ano de gestão no Brasil?
Framil - O de ser muito seletivo nas apostas. Eu costumo dizer que em momentos como este as chances de errar aumentam, então é preciso ser mais analítico nas propostas e muito mais claro na proposição de valor para os clientes e quais clientes estão mais abertos para discutir transformações. Quando você está num mercado de maior bonança, mesmo quando você erra, pode acertar, sente menos. Agora, no contexto atual, se você errar, corre o risco de perder investimento.
Estamos movendo mais para agenda País que em cada um dos negócios que atuamos. Mais geográfica que em cada uma das unidades de negócio. Em momentos de grande crescimento, você descentraliza mais para ter ganhos de market share, quando está em momentos restritivos, é preciso ter clareza de onde estão suas oportunidades para ser mais assertivo nas suas apostas. Tivemos vantagem de ter investimentos que nos capacitou nos últimos anos e nos permitem ser mais efetivos nos setores que faremos aposta. 
ITF 365 - Lá fora se recebe bem essa aposta na agenda local?
Framil - Sim. As pessoas não esperam que você tome em situações mais restritivas o mesmo modelo de gestão do momento de bonança. Esperam que você entenda as mudanças e o Brasil é um País muito importante para a Accenture globalmente, mesmo ano passado que não era ano de crescimento do PIB fizemos aquisição. O que os de fora querem entender é nossa estratégia e a Accenture caminha para a geografia ter mais relevância. Entendemos que atuar localmente, alavancando globalmente, é a forma certa. E não ser global para alavancar o local. Essa mudança está acontecendo de maneira geral no mundo.

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