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Tecnologia que dá samba

A arte de usar o maior festival a céu aberto do mundo para propagar a 4ª revolução industrial.

*Elcio Brito

07/09/2019 às 20h44

Foto: Shutterstock

Notamos que o mundo está mudando – para melhor – quando nos deparamos com ações notoriamente pensadas para promover a integração entre hard skills e soft skills. Quando assistimos, em um mesmo auditório, carnavalescos, sambistas, engenheiros e tecnólogos falando um idioma novo e se entendendo perfeitamente bem, concluímos que já estamos vivenciando Tempos Modernos. Tempos de entender que tecnologia não funciona quando isolada dentro de centros de inovação ou academias. Mas que ela só faz sentido quando colocada à serviço da sociedade, na medicina, nos negócios e na cultura.

A Sociedade Rosas de Ouro entendeu este recado. A tradicional escola de samba paulistana levará o enredo Tempos Modernos para o Carnaval 2020, dessa vez, não contando apenas com seus diretores, carnavalescos e componentes, mas também com um time que pode até ser ruim de samba no pé, mas dá um baile quando o assunto é apresentar a revolução 4.0 por meio de experiências digitais em um ambiente desafiador, que em nada se assemelha ao habitat natural de quem respira tecnologia: o sambódromo de São Paulo.

O desfile promete um espetáculo que contará as revoluções industriais e seus impactos na história da humanidade, com ênfase na quarta e atual revolução, a chamada 4.0, que une tecnologia e comunicação, uma convergência entre o mundo digital, o físico (que são as coisas) e o mundo biológico (que somos nós), criando um novo universo, um mundo 4.0. Robótica, tecnologia, inteligência artificial e realidade aumentada entrarão na avenida para ajudar a escola a fazer um carnaval inovador.

A quarta revolução é produto do desenvolvimento exponencial simultâneo das tecnologias desses três mundos. O projeto "LUKE Arm" – o braço de Luke, uma prótese robótica controlada pelo cérebro, que permite ao usuário ter 119 sensações de toque – é um exemplo do que se pode alcançar combinando tecnologias surpreendentes destes três mundos. O grande desafio nesta revolução é viabilizar o acesso aos benefícios da nova era para toda a sociedade. E o primeiro passo é a difusão em massa do conhecimento sobre o momento que vivemos.

O sucesso desse projeto pode motivar as novas gerações a superarem os desafios que uma carreira em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) podem representar e isso é fundamental para o progresso de um país. Segundo dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), em 2018, o Brasil formou dois milhões de pessoas em STEM, enquanto os Estados Unidos formaram 15 milhões. É necessário trabalhar a oferta de condições para a educação em STEM, mas também a demanda por este tipo de formação.

De acordo com uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Brasil terá que qualificar 10,5 milhões de trabalhadores na indústria até 2023. De acordo com o estudo, a demanda será por qualificação de pessoas em ocupações industriais nos níveis superior e técnico. E apenas 22% desses esforços serão para capacitar quem ainda vai ingressar no mercado de trabalho. A grande maioria dessa reciclagem profissional tem como alvo o grupo já empregado.

Além disso, a OCDE aponta que existe uma sub-representação de mulheres nos campos de STEM. Para se ter uma ideia, as mulheres são menos de 20% dos participantes de programas de ciência da computação em nível universitário e apenas 18% nos programas de engenharia dos países da OCDE.

Podemos dizer, portanto, que temos um problema do triplo gap: não formamos o número de profissionais necessários; os que estão formados requerem treinamento e, mesmo o grupo considerado apto, não representa a sociedade, pois a cada 10 pessoas, apenas duas são mulheres.

Derrubando barreiras, a iniciativa da Rosas de Ouro irá provar que não existe isso de a tecnologia lá e nós aqui. Estamos juntos e, se não caminharmos dessa forma, não chegaremos a lugar algum. A escola de samba precisa do know-how da academia e a academia precisa dessa grande vitrine para mostrar toda a sua potencialidade e colaborar com uma sociedade mais moderna e igualitária no país.

*Por Elcio Brito, diretor de tecnologia da SPI Integração de Sistemas LTDA. É também conselheiro do CONIC (Conselho Superior de Inovação e Competitividade) da FIESP, pós-doutorando na Poli/USP. Doutor em Engenharia Elétrica, pela Poli/USP, mestre em Engenharia Mecânica, pela FEI, e master Systèmes d'Information et d'Organisation, pela Universidade Pierre Mendès, além de ser bacharel em Administração, pela FAAP. Co-coordenador e coautor do livro Automação & Sociedade: Quarta Revolução Industrial, um olhar para o Brasil.

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